segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Precisamos saber tudo o que tempo todo

Esse texto foi produzido originalmente para um teste de admissão. Mas como eu gostei dele resolvi "salvar" em meu blog. Espero que gostei (alguém ainda acessa blogs?)


Hoje com o acesso à informação quase sem fronteiras é penoso saber a origem de tudo que consumimos hoje, seja no formato de produtos, conhecimento ou mesmo de processos. Chamarei esses produtos, conhecimentos e et cetera de "coisa" apenas à guisa de tornar a leitura mais fácil. Então, qual a vantagem de saber a origem da coisa que estamos observando? Precisamos mesmo conhecer tudo o que usamos, tomamos, aprendemos, desde seu cerne até o ponto que realmente nos interessa no momento de contato? E quando podemos ter segurança em delegar esse conhecimento a terceiros, ou mesmo esquecer de sua existência? A resposta curta para esses questionamentos é "depende muito do contexto". Essa resposta pode ser um pouco frustrante ao mesmo tempo que não nos deixa completamente no escuro, uma vez que ela nos dá todas as ferramentas para buscarmos nós mesmos a resposta longa. Se o contexto é determinante para sabermos quando buscar a origem da coisa que estamos em contato então precisamos trazer à tona o que constrói o contexto. para então confrontar com nosso objeto observado e então decidir de maneira simplória se vale ou não a pena saber sua origem. Podemos resumir o contexto em basicamente 4 critérios simplificados: o tempo no qual se insere o conteúdo (que em diversas ocasiões podemos chamar de "contexto histórico"), a estrutura social (qual sua origem, feito por quem e quais os interesses envolvidos) o interesse (seja nosso ou geral sobre a coisa que estamos debruçados) e o uso que daremos àquela coisa. Se tomarmos como exemplo o aprendizado de como utilizar API's (lendo esse texto como exemplo: https://vertigo.com.br/o-que-e-api-entenda-de-uma-maneira-simples/) temos o tempo claro o tempo que o conteúdo está inserido (texto de 2018 tentando explicar para que serve uma API) e qual a estrutura social envolvida (um texto de conteúdo educativo produzido por uma consultoria com a intenção de atrair potenciais interessados a seus serviços). Entretanto, qual o interesse aqui? Para sabermos por onde começar, pedimos ajuda ao último critério: qual o uso que faremos com esse conhecimento? Vamos construir nós mesmos a nossa API? Vamos dar suporte a algum time de negócios? Seremos o(a) novo Gerente de produtos da empresa e precisamos entender rapidamente o que é uma API? Ou queremos adquirir conhecimento geral, entendendo API conceitualmente, como se originou, entender as possíveis modelagens? Isso nos ajuda a dizer qual nosso real interesse naquela coisa que estamos trabalhando ou mesmo entendendo. Ou seja, o uso define o interesse assim como o interesse definirá nosso uso. Se queremos apenas entender como funciona uma API para poder conversar de igual para igual com nosso time de desenvolvimento, o aprofundamento não precisa ser grande, podemos apenas focar nos pontos básicos, como a interface entre softwares, o que significa o "contrato de uma API", pegar alguns exemplos e partir para a prática. Da mesma forma, se pretendemos tratar de um assunto que seja mais complexo mesmo para quem já discutiu muito sobre ele, por exemplo a representatividade no ambiente de trabalho, precisamos aplicar os mesmos critérios para que possamos entender se vale ou não a pena aprofundar ainda mais o conhecimento nesse campo: o que eu tenho a ver com isso? Por que representatividade é importante? O quanto isso me impacta? A resposta a essas perguntas podem aumentar ou diminuir o interesse na coisa estudada. Com muito interesse pode-se querer saber qual a origem desse tema e, se aprofundando mais, vir à tona outras coisas que podem também aumentar mais ou menos o interesse (como descobrir que a origem disso tudo vem do preconceito que é estrutural à sociedade, para então querer saber qual a origem desse preconceito, para descobrir que isso vem de uma forma como a sociedade se estruturou inicialmente de maneira econômica para então partir para uma visão mais ideológica, etc. etc.) entrando em uma espiral de aprofundamento quase sem fim. O mesmo se dá com a tecnologia no exemplo inicial: Se o interesse for por adquirir conhecimento passamos então à entender superficialmente como funciona uma modelagem de um software, que pode levantar uma nova coisa: como se constrói um software? E essa nova coisa entra novamente na avaliação inicial: qual o contexto dela? (Ou seja, no meu contexto sócio-temporal eu tenho interesse em me aprofundar nesse conhecimento? E qual o uso que darei a esse novo conhecimento adquirido?) Concluindo, nós nem sempre precisamos saber tudo o tempo todo. Ao comprar um carro novo não precisamos saber a fundo qual a nova tecnologia utilizada por aquele fabricante naquele modelo, naquele motor se nosso contexto for apenas de "quero comprar e saber os custos que terei que arcar com manutenção pois não pretendo me tornar um mecânico de automotores. Mas se eu pretendo me tornar um mecânico, quero saber tudo nos mínimos detalhes ou apenas a parte elétrica onde tenho mais afinidade? Para responder todas essas perguntas, que basicamente vão dizer onde focamos nossos esforços e energias, a pergunta que deve ser feita antes de mais nada, consciente ou inconscientemente é sempre "Qual o contexto?"